Me acorde, ou Anseios de um jovem trecheiro




Eu estava lendo “Factótum” de Charles Bukowski no instante em que peguei a BR 116, estava no meio do romance. Subi num caminhão em POA, numa estrada que ligava à “rodovia da morte”. Era um caminhãozinho cara-chata, transportador de bolinhos. Delicias açucaradas. Abner era o motorista. Um distinto caminhoneiro que dizia abertamente, não usar nenhum tipo de droga,  o que eu discordava. Ele podia não usar cocaína ou qualquer droga sintética, mas ele adorava uma boa garrafa de café, de preferencia as de 1 litro. “Essa baboseira de café descafeinado, café com açúcar, ou adoçante, ou até mesmo café com açúcar junto com adoçante” ele dizia ”é tudo frescura, o melhor café é o amargo; amargo como o diabo, e escuro como o inferno” e voltava a cantarolar uma velha canção. 

O único problema de viajar com o Abner junto, era que ele não permitia cigarros dentro do caminhão. Na primeira vez que tentei acender um, ele arrancou de minhas mão e jogou o cigarro aceso pela janela aberta do seu lado. Não conseguia aguentar a vontade louca de fumar, não via a hora de chegarmos em Gravataí. Lá era o destino final para ele. Porém, para mim era apenas mais uma dentre as demais cidades pelas quais eu passaria até chegar em SP. Ao pararmos na rodoviária de Gravataí, nos despedimos e agradeci pela carona. Me senti horrível, por não consegui passar uma hora sem fumar; droga, eu era realmente um viciado de merda.

Eu tinha pouco tempo para chegar ao meu destino; o maior festival de música da américa latina, Zoolapallooza. Estariam em São Paulo alguns dos artistas, bandas e dj's mais famosos do mundo. Seriam cinco dias de pancadaria, diversos palcos montados e virados para milhares de pessoas. Eu estava muito empolgado com tudo aquilo. Tinha reservado meu ingresso um ano antes. O plano original era ir com meu primo Paulo. Mas seu pai faleceu duas semanas antes do evento. Ele foi mais prudente do que eu, escolheu ficar. Não tinha cabeça para isso. Prometi para ele que se fosse preciso eu iria a pé, e faria isso por nós dois. Éramos fissurados em música desde pequenos. Não estava viajando só por pura diversão, era a priori, por necessidade. Precisava daquilo. Por nós.

Andei por quatro horas seguidas de baixo do sol, com algumas pequenas paradas para se alimentar e se hidratar. Cansado demais para desistir, motivado demais para voltar atrás. Ainda não estava no ponto de deixar a minha apatia dominar aquela estrada. A paixão ainda ardia em mim. Enfim consegui minha segunda carona, ainda na mesma rodovia. O Sol havia se coberto de um manto de nuvens acinzentadas. Mas para mim, o tempo continuava bom.

“Te livrei de uma tempestade” disse Lourdes, uma caminhoneira de uns trinta e tantos anos. Acho que dirigia um caminhão Toco, não me lembro muito bem. Não era muito experiente, dizia ela que estava no ramo há pouco tempo, mas que essa seria sua primeira longa viagem. Estava à caminho de Mafra, em Santa Catarina, e dizia que se a pista continuasse boa, o processo inteiro levaria dez horas, sendo bem otimista. Durou doze horas, contando com as paradas que fizemos para ir ao banheiro. Ela tinha bexiga baixa.

Depois da quinta vez que paramos, eu comecei a cronometrar. Em meu velho companheiro de batalha, meu relógio de pulseiras vermelhas, marcava os exatos cinco minutos em que Lourdes demorava para reaparecer ao meu alcance visual.

Juntos, formávamos uma bela dupla. Ela fazia o soprano e eu só acompanhava com a cabeça, no ritmo das músicas. Talvez tenha sido as doze horas mais demoradas da minha vida. Cochilei em algumas partes da viagem. E em algum momento em que puxava um ronco, a chuva começou a cair. Lembro-me que foi agradável nas primeiras duas horas, antes da chuva apertar e se transformar em um temporal.

Pulei na rodoviária de Mafra durante o temporal; estava preparado. Não era um caroneiro de primeira viagem. A minha primeira foi de Porto alegre para Camaquã, para visitar um amigo de infância. E foi o suficiente para aprender, digo, não tem como se aprender totalmente a ser um trecheiro. Tem como se aprender o básico, como por exemplo, levar uma capa de chuva; sempre.

Andei os pelos próximos vinte quilômetros a pé e dei a sorte de saltar para cima de uma carreta com lona, num posto de gasolina. Não sei ao certo quanto tempo fiquei lá, estava escuro e frio, não dava para verificar o relógio. Cochilei. E tempos depois, fui acordado com uma bofetada na cara. Aparentemente era dia, pois estava claro. Me apoiei na lateral do caminhão e me deixei cair para baixo, da pior maneira possível; com mochila e tudo mais. O homem que me socou, desceu também, mas é claro que não com tanta elegância como eu.

”Seu vagabundo, acha que pode levar vantagem em cima de mim? Acha?” berrava ele. Eu tentava olhar ao redor e achar alguém, mas a estrada estava vazia; estávamos em uma estrada, mas não era a interestadual. Me deu um chute na boca do estomago que me fez, por um segundo, virar os olhos de tanta dor. Fiquei ali agonizando. Instantes depois o caminhão estava andando, e me abandonando por consequência.

Aquele babaca adiantou muito o meu trabalho, ele me largou em São Paulo, Juquiá. Talvez por força do destino, a qual alguns chamam de Deus, eu estava mais perto do que nunca do meu destino. A  última carona que peguei, foi com um cara chamado Tim Bergling. Conversamos bastante sobre o meu primo. Sabe... toda essa situação. Me fez lembrar da minha adolescência e dos bons momentos entre nós dois. A última frase que escutei de Tim, foi “Um dia você deixará este mundo para trás, então viva uma vida que você vai se lembrar”. E ao descer de seu carro na capital, vendo a poeira subir de seus pneus, algo me reconfortou. Eu sabia que tudo estava bem. Eu estava em São Paulo.


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